Com tudo, o Vaticano vive sobre o “fio da espada” entre a realidade e o dogma. Seus fiéis, se seguirem a doutrina, só praticarão sexo com a finalidade de procriar. A obra de referencia das religiões ocidentais, a Bíblia, em muitas interpretações trata o sexo como pecado e coisa suja, algo que deve ser expiado. Pode ser isso a causa de tantos episódios sangrentos ligados ao sexo no Antigo Testamento.
Talvez o grande acontecimento na vida privada dos ocidentais, nas últimas décadas de século XX, foi o surgimento de um erotismo totalmente estranho ao sistema cultural judaico-cristão. A cultura judaico-cristã considera o sofrimento uma virtude e o prazer, um pecado. O controle do prazer das pessoas é uma forma de controlá-las. O prazer sexual sempre foi visto como o mais perigoso de todos os pecados, por pertencer à natureza humana e atingir a todos sem exceção. Portanto, é o mais controlado.
Na Idade Média o ato sexual no casamento só era isento do pecado se não houvesse prazer entre o casal. Se o homem desejasse a esposa, estaria cometendo um verdadeiro adultério. E como a mulher desvincularia, então, o orgasmo da procriação? Boa pergunta...
Todavia, nem sempre a Igreja Católica expressa muito bem suas instituições. A Igreja teve uma intuição da ambivalência da sexualidade humana, pois pode esta ser caminho tanto de realização como de frustração, tanto de comunhão como de dominação, tanto de construção como de destruição, dependendo apenas de como trabalhamos nossa sexualidade. E quando ela é vista, compreendida e vivida em profundidade, torna-se um caminho da graça, do amor e da realização humana.
Mas, então, o que ainda há de errado no prazer sexual? Por que ainda existe tanta repressão? Uma explicação possível está no fato de que, quanto mais o individuo vai ampliando , aprofundando e diversificando sua vida sexual, mais coragem ganha para fazer outras coisas, questionar outros valores. Vive, assim, com maior vontade e decisão. O que pode ser tornar perigoso. Com as grandes transformações na moral sexual, homens e mulheres passaram a não acreditar mais, conscientemente, no ato sexual como um pecado. Mas, há muita coisa ainda no inconsciente e o sexo continua sendo um problema complicado e difícil, com muitas dúvidas. Ainda se acredita que o sexo é uma coisa impura e nada humana. Enfim, não foram poucos os séculos de repressão.
Não há duvidas que o legado deixado a nós pela Bíblia é decisivo, extenso e forte, que perpetua ao longo de nossa história mesmo depois de mais de 3000 anos do início de sua escrita. Significá-la até hoje é um exercício indecifrável, para poucos, se é que há alguém que, realmente, foi capaz disso. Precisamos lembrar que Jesus nos ensinou sobre o amor, nada mais sublime que desfrutar do amor puro e verdadeiro, mesmo que para isso haja o desejo carnal e a completude através da realização do ato sexual. Afinal de contas, Deus nos fez seres sexuados!
Gaiarsa JA. Poder e prazer. Ágora, 1986.
Moser A. Religião e seus posicionamentos. In: Giumbelli, E. (Org.). Religião e Sexualidade: convicções e responsabilidades. (p. 21-25). Rio de Janeiro: Garamond, 2005.
Lins RN. & Braga F. O livro de ouro do sexo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.
